Se Jesus foi crucificado na sexta e ressuscitou no domingo, onde estão os três dias? A resposta está na Bíblia e na maneira judaica de contar os dias.
Uma das dúvidas mais comuns sobre a morte e a ressurreição de Jesus é esta:
Se Jesus morreu na sexta-feira e ressuscitou no domingo, como a Bíblia pode dizer que Ele ressuscitou no terceiro dia?
À primeira vista, pode parecer que existe uma contradição. Afinal, da sexta-feira até a manhã de domingo não se completam 72 horas.
Mas o problema desaparece quando entendemos que, no mundo judaico da época de Jesus, os dias não eram contados exatamente da mesma maneira que costumamos contar hoje.
Jesus morreu na sexta-feira?
De acordo com a cronologia cristã tradicional, sim.
Os Evangelhos relatam que Jesus morreu no chamado Dia da Preparação, pouco antes do sábado.
Em Lucas 23:54, após o sepultamento de Jesus, lemos:
«“Era o dia da preparação, e começava o sábado.”»
José de Arimateia colocou o corpo de Jesus no sepulcro antes do início do sábado.
As mulheres que acompanhavam Jesus observaram onde o corpo havia sido colocado e depois descansaram no sábado, conforme o mandamento.
Isso é importante porque mostra a sequência:
Sexta-feira: morte e sepultamento de Jesus.
Sábado: Jesus permaneceu no sepulcro.
Domingo: o sepulcro foi encontrado vazio.
Jesus ressuscitou no domingo?
Sim.
Os Evangelhos afirmam que as mulheres foram ao sepulcro no primeiro dia da semana, que corresponde ao domingo.
Lucas 24:1 diz:
«“No primeiro dia da semana, muito cedo, foram elas ao sepulcro.”»
Quando chegaram, a pedra já estava removida.
Jesus havia ressuscitado.
Marcos 16:2 também registra que isso aconteceu no primeiro dia da semana.
Portanto, segundo a compreensão cristã tradicional, Jesus morreu na sexta-feira e ressuscitou no domingo.
Então como domingo pode ser o “terceiro dia”?
Aqui está o ponto que esclarece a dúvida.
Na forma judaica antiga de contar períodos de tempo, uma parte de um dia podia ser incluída na contagem como um dia.
Assim, a contagem fica:
Sexta-feira — primeiro dia
Jesus morreu e foi sepultado antes do sábado.
Sábado — segundo dia
Jesus permaneceu no sepulcro.
Domingo — terceiro dia
Jesus ressuscitou.
Portanto, não era necessário que se completassem três períodos de 24 horas.
Era uma contagem inclusiva.
É semelhante a alguém dizer: “Viajei na segunda, fiquei lá na terça e voltei na quarta.”
Mesmo que tenha chegado tarde na segunda e voltado cedo na quarta, segunda, terça e quarta fazem parte do período contado.
A própria Bíblia chama o domingo de terceiro dia
Um dos textos mais importantes para entender a questão aparece na história dos discípulos no caminho de Emaús.
No próprio domingo da ressurreição, dois discípulos conversavam sobre a morte de Jesus.
Em Lucas 24:21, eles disseram:
«“Hoje é já o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram.”»
Isso é extremamente significativo.
A conversa acontece no domingo, e os próprios discípulos chamam aquele dia de terceiro dia desde os acontecimentos relacionados à morte de Jesus.
Pouco depois, Jesus explica que era necessário que o Cristo sofresse e ressuscitasse.
Lucas 24:46 registra:
«“Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia.”»
Portanto, o próprio relato de Lucas identifica o domingo como o terceiro dia.
Paulo também diz que Jesus ressuscitou no terceiro dia
O apóstolo Paulo resume uma das declarações centrais da fé cristã em 1 Coríntios 15:3-4:
«Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia.»
Essa declaração provavelmente preserva uma tradição cristã extremamente antiga sobre a morte e a ressurreição de Jesus.
Novamente aparece a expressão:
“ao terceiro dia”.
Mas Jesus não falou em “três dias e três noites”?
Essa é provavelmente a maior dúvida sobre o assunto.
Em Mateus 12:40, Jesus compara o que aconteceria com Ele à experiência do profeta Jonas:
«“Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.”»
Algumas pessoas entendem essa frase como exigindo exatamente 72 horas.
Por causa disso, existem interpretações que defendem que Jesus teria sido crucificado na quarta-feira ou na quinta-feira.
Essas interpretações existem e fazem parte do debate entre estudiosos e grupos cristãos.
Porém, a interpretação tradicional entende “três dias e três noites” como uma expressão de tempo usada segundo o modo antigo de contar os dias, e não necessariamente como 72 horas completas.
Existe um exemplo parecido no Antigo Testamento
Um texto frequentemente citado nessa discussão aparece no livro de Ester.
Ester pede:
«“Não comais nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia.”»
Isso aparece em Ester 4:16.
Porém, logo depois, Ester 5:1 diz:
«“Ao terceiro dia, Ester se aprontou…”»
Ela não esperou necessariamente o término de 72 horas completas.
O “terceiro dia” já fazia parte do período descrito anteriormente como “três dias, noite e dia”.
Esse tipo de linguagem ajuda a entender por que expressões de tempo na Bíblia nem sempre correspondem à maneira moderna de calcular horas exatas.
“Depois de três dias” e “no terceiro dia” são contradições?
Os Evangelhos usam diferentes expressões ao falar da ressurreição.
Em alguns textos aparece:
“ao terceiro dia”
Em outros:
“depois de três dias”
Para um leitor moderno, essas frases podem parecer indicar períodos diferentes.
Mas no contexto antigo, essas expressões podiam ser usadas de maneira equivalente dentro da contagem inclusiva.
O ponto principal dos Evangelhos não é estabelecer um cronômetro de exatamente 72 horas.
A mensagem central é que Jesus realmente morreu, foi sepultado e ressuscitou conforme havia anunciado.
A sequência tradicional é simples
Podemos resumir assim:
Sexta-feira — primeiro dia
Jesus é crucificado.
Ele morre.
José de Arimateia pede o corpo a Pilatos.
Jesus é colocado no sepulcro antes do início do sábado.
Sábado — segundo dia
Jesus permanece no sepulcro.
Os discípulos descansam conforme o sábado judaico.
Domingo — terceiro dia
Ainda pela manhã, as mulheres vão ao sepulcro.
A pedra está removida.
O túmulo está vazio.
Jesus ressuscitou.
Por isso, o domingo é chamado de terceiro dia.
Jesus ficou exatamente 72 horas no túmulo?
Na interpretação cristã tradicional, não é necessário concluir que Jesus tenha permanecido exatamente 72 horas no sepulcro.
A expressão “terceiro dia” é compatível com a contagem inclusiva usada no ambiente judaico antigo.
Sexta-feira conta como o primeiro dia, mesmo que Jesus tenha sido sepultado apenas durante parte daquele dia.
Sábado é o segundo.
Domingo é o terceiro.
É por isso que a Igreja cristã, desde os primeiros séculos, tradicionalmente recorda a crucificação na Sexta-feira da Paixão e celebra a ressurreição no Domingo de Páscoa.
Então existe contradição na Bíblia?
A diferença aparece principalmente quando aplicamos ao texto bíblico a nossa maneira moderna de contar horas.
Se alguém partir da ideia de que “três dias” obrigatoriamente significa três blocos completos de 24 horas, realmente surgirá uma dificuldade.
Mas os textos bíblicos usam uma forma antiga de contar os dias.
O próprio domingo da ressurreição é chamado de terceiro dia em Lucas 24.
Isso fornece uma das evidências mais claras de como os autores entendiam a expressão.
Conclusão
Segundo a cronologia cristã tradicional:
Jesus morreu e foi sepultado na sexta-feira.
Permaneceu no sepulcro durante o sábado.
Ressuscitou no domingo.
E o domingo é chamado de terceiro dia porque a contagem incluía a parte da sexta-feira, todo o sábado e parte do domingo.
Portanto:
Sexta-feira = primeiro dia.
Sábado = segundo dia.
Domingo = terceiro dia.
A aparente dificuldade surge quando tentamos transformar a expressão bíblica “terceiro dia” em exatamente 72 horas.
Entendido dentro do contexto da época, o texto faz sentido.